Jogar com a cabeça
Uma Newsletter especial da Copa
Na partida contra a Argélia, na estreia em sua sexta Copa do Mundo, Lionel Messi esteve mais de 60% do tempo andando ou trotando em campo, segundo dados da Fifa. “Ele não precisa correr o tempo todo, a cabeça vai mais rápido do que as pernas”, disse o uruguaio Luis Suárez, amigo e colega de clube do craque argentino.
No jogo em que esteve praticamente parado mais da metade do tempo, o camisa 10 da Argentina marcou três gols. Nenhum deles de cabeça (dois com a perna canhota e um com a destra), mas todos usando a cabeça. Na partida seguinte, cujo postura em campo foi bastante parecida com a estreia, Lionel anotou outros dois. Até agora, foram cinco tentos (todos os que a sua equipe marcou na Copa) em dois jogos.
Se somarmos as suas outras participações na competição, Messi tem 18 gols (em 27 partidas). É o maior artilheiro da história das Copas, seguido de perto por Kyllian Mbappé, que tem números ainda mais assustadores: já marcou 16 vezes em 16 jogos. O francês, hoje com 27 anos, tem tudo para disputar mais dois (ou até três) Mundiais. Quero estar vivo para ver até onde ele chega.
Suárez disse, na entrevista já citada, que Messi continua com a mesma “fome de sempre”, mas que agora tem mais inteligência para escolher o momento de ir. Ou seja, a hora de se movimentar em campo e qual movimento fazer. “Na velhice, aprendi a compor menos músicas”, terá dito certa vez Giuseppi Verdi, o grande compositor de óperas. Messi, na “velhice” (acaba de completar 39 anos), parece ter aprendido a correr menos - ou talvez correr melhor, só na hora que precisa.
O futebol é um esporte praticado com os pés mas em que se deve usar a cabeça para jogar. Não são muitas as modalidades esportivas em que ser mais alto, mais forte ou mais veloz não é, por si, uma vantagem competitiva. Nesse sentido, é um esporte muito democrático e inclusivo. O norueguês Erling Haaland, que mede 25 centímetros e pesa 20 e tantos quilos a mais do que Messi, também briga, ao lado de Mbappé e Vini Jr (nem tão baixinhos nem tão leves), pela artilharia da competição. Todos eles marcaram, até agora, um gol a menos do que o argentino. Quem vencerá essa disputa pela artilharia? Eu diria que não será nem o mais rápido e nem o mais habilidoso deles, senão aquele que usar melhor a cabeça dentro de campo.
Desde a véspera do início da Copa tenho me correspondido com o Rodrigo Casarin, jornalista, escritor e autor do ótimo Página Cinco. O início da conversa, que pode ser acompanhada no note, foi publicado por ele aqui.
Deixo aqui a mais recente missiva que enviei ao meu amigo de bola e livros.
Barcelona, 23 de junho de 2026
Casarin, meu chegado*, tudo bem por aí?
Estou com a estranha sensação de estamos vivendo uma espécie de posfácio ou epílogo da última Copa. É como se aquele duelo Messi x Mbapé na final do Catar ainda não tivesse acabado. O argentino tira mais um coelho da cartola, o francês responde com outra mágica improvável. Cinco gols de um e quatro do outro em dois jogos neste Mundial. Que insanidade, até onde eles podem chegar? Que sorte a nossa de poder assistir a isso.
Nesta altura do campeonato acho que já não existe dúvidas de que a Argentina tem um só plano: entregar a bola para o seu camisa 10. Você viu aquela imagem deles entrando em campo na estreia, em que Messi ia no centro “escoltado” pelo resto da equipe? Na Copa jogada nos EUA, a tática do atual campeão lembra o futebol americano: a função de todo o resto do time é proteger a sua estrela e permitir que ele possa estar o máximo de tempo possível com a bola. Pode ser arriscado, mas até agora tem dado certo. Se você tivesse o Messi no seu time não faria o mesmo?
Falando em argentinos, se eu um dia tiver dinheiro para perder, abrirei uma editora. E se isso acontecer, o primeiro livro que publicarei será uma antologia com texto sobre futebol que incluirá um perfil que Martín Caparrós escreveu de Martín Palermo. Talvez os mais jovens não se lembrem de Palermo, aquele atacante grandão, desengonçado, que tinha uma capacidade incrível para fazer e perder gols. Caparrós, que é torcedor fanático do Boca Juniors, conta que costumava chamar o camisa 9 do seu time de “El Muerto” e também de Semáforo, porque interrompia o fluxo das jogadas do time.
Carlos Bianchi, que treinou Palermo, preferiu apelidá-lo de “o otimista do gol”, porque nunca desistia. Errava uma, duas, três vezes, na cara do gol, sem goleiro, embaixo da trave, até que em algum momento da partida marcava e fazia as pazes com os torcedores.
“Detestei Palermo durante muitos anos, agora o admiro como poucos”, escreve Caparrós no perfil que a minha futura editora publicará. “É fácil triunfar sendo Messi, o difícil, o meritório, o incrível, é ganhar sendo Palermo. Palermo é um canto de esperança, o estandarte dos que nunca tivemos um talento em particular: a demonstração que todos podemos.” Me diz que não ficou com vontade de ler o texto todo?
Voltando à Copa, sei que você tem um grande amor pelo Uruguai, mas ver Cabo Verde marcar duas vezes e fazer um ponto (mais um) foi delicioso, não foi? Imagina que eles podem até se classificar em primeiro num grupo em que estão dois campeões mundiais. Que esse sonho não acabe tão logo…
E essa tua seleção de escritores de todos os tempos, hein? Achei maravilhosa. Se você me permitir, vou fazer só uma sugestão. Eu daria a Homero o microfone, para que seja ele quem narre a épica que um time com Shakespeare, Cervantes e Camões construirá. E quem entraria na vaga de volante? Talvez Hemingway, todo time precisa de um brucutu, um cara que de vez em quando dê uma chegada mais forte num adversário e não faça firula com a bola no pé.
Amigo, a minha viagem está nos finalmentes. Volto hoje para Portugal a tempo de ver o duelo contra o Uzbequistão. As notícias que me chegam de lá é que a coisa esquentou, que se fala muito da Copa e que o país anda dividido entre os que acham que Ronaldo deve continuar como titular, embora a pífia estreia que teve, e os que defendem que o vendedor de shampoo anticaspa deve ficar, bem penteadinho, sentadinho no banco de reservas (sou dessa turma).
Te mando um abração que cruzará o oceano e que quando sobrevoar Cabo Verde lançará, de para-quedas, uns quantos beijos e abraços aos nossos irmãos de língua.
Viel
*Na minha infância e adolescência, lá em Lins, era comum chamar a um amigo bem próximo de chegado. Você já escutou isso? Tenho a impressão que não se usa mais, verdade?




Ricardo, que delícia de texto futebolístico. Também não paro de pensar nesses assuntos todos. Na Piauí deste mês há um texto ótimo do Fernando de Barros e Silva sobre a nossa busca do camisa 10. Vale a leitura. E vou acompanhar essa sua correspondência com o também querido Casarin. Abraço!