A bola
Uma Newsletter de Ricardo Viel
Eram dois, teriam por volta de dez anos, e corriam atrás de uma bola vermelha. Eu, que acabara de subir uma íngreme encosta, tinha resolvido descansar um pouco no banco da praça e assisti à cena toda. Vi como a bola, após bater num dos degraus da escadinha do coreto, veio quicando para perto de um deles, que armou o chute e disparou fazendo com que ela subisse e subisse até estacionar nos galhos de uma frondosa árvore.
Os pequenos olhavam incrédulos para cima. Conhecedor desse tipo de situação, me aproximei. “Se forem tacar pedra, cuidado com aquelas janelas”, falei. Reagiram como se eu tivesse dito a maior atrocidade do mundo. Logo percebi que não tinham experiência no resgate de bolas. Pensei em outra alternativa. “Ali está o quartel dos bombeiros. Vão lá e peçam ajuda, eles têm escadas”, comentei. “Os bombeiros? Não, eles não podem, têm muito trabalho”, respondeu o garotinho. Argumentei que deveriam tentar, mas não me fizeram caso. Pegaram as mochilas e foram embora.
Eu também fui, mas no caminho ia lembrando das muitas bolas que perdi na vida. Às vezes, a câmara de ar começava a sair por uma das costuras da pelota. Era como um tumor, que ia crescendo e crescendo até que inevitavelmente a câmara explodia e a brincadeira acabava. Na rua onde jogávamos havia um velho que, quando a bola caía no quintal da sua casa, devolvia a esfera furada, com um rasgo de faca. Desejei a morte daquele homem muitas vezes. Uma vez um caminhão atropelou uma bola enquanto jogávamos na rua. Já vi bola cair em bueiro, já vi bola ficar presa em fio de eletricidade, já vi bola ser levada pela correnteza da chuva. E já participei de muitos resgates delas, alguns envolvendo altos riscos. Talvez por isso a passividade daqueles garotos me tenha chocado.
Não vou dizer que na minha infância éramos pobres, mas uma bola era um artigo de luxo. Ganhávamos uma por ano, quase sempre no Natal. Às vezes conseguíamos, com uma vaquinha, comprar uma entre todos. Quem dava um pouco mais de dinheiro ficava com ela em casa. Se o “dono” da bola estivesse de castigo ou doente, ninguém jogava.
Modéstia à parte, de bola eu entendo. Chutei bola de meia feita pela minha avó, driblei meus cachorros no quintal de casa com bola de tênis, perdi a cabeça do dedão ao chutar bola descalço na rua. Paulo Mendes Campos chamou-a de “o brinquedo mais perfeito que jamais foi inventado”. Certa vez ganhei do meu padrinho a bola oficial da Copa do Mundo de 1994. Creio que nunca voltarei a sentir alegria parecida.
Passados mais de 40 anos da primeira vez, continuo a ser feliz com uma bola nos pés. Há pouco tempo, na pelada onde jogo, comprámos dois novos exemplares. Lindas, leves, macias. Coube a mim recebê-las e prová-las. Que alegria, que prazer é chutar uma bola nova, num bom gramado, depois de um dia de trabalho. Javier Marías diz que o futebol é a recuperação semanal da infância. Me atrevo a completar a sentença para dizer que a bola é o meio de transporte para esse tempo passado em que fomos felizes, em que o grande problema era recuperar uma bola que foi parar no topo de uma árvore.
Ontem passei pela praça e ela segue lá à espera de que os meninos encontrem forma de recuperá-la. A ideia de chamar os bombeiros continua me parecendo boa. Também acho que é possível escalar a árvore e chacoalhar os galhos para fazê-la cair. Outra hipótese é chutar uma outra bola em direção àquela - o risco é que ambas fiquem por lá. Também não descartaria a ideia de jogar pedras, mas é preciso cuidado já que por ali passa muita gente e há várias janelas por perto. Enfim, o que sei é que não se pode dar uma bola por perdida com essa facilidade. É preciso fazer algo.



Na minha escola, meu maior medo era "embarcar" a bola na casa vizinha, que era uma mansão com três cachorros enormes. Era o maior momento de tensão quando alguém precisava pular o muro e resgatar a bola sem ser mordido pelos cachorros.